Padre Vito Miracapillo ganha título de Cidadão Pernambucano 46 anos após ser expulso do país

Padre Vito Miracapillo ganha título de Cidadão Pernambucano 46 anos após ser expulso do país

 

Vito Miracapillo foi um dos nomes de grande repercussão no Brasil dos Anos 1980. Em plena Ditadura Militar, o sacerdote italiano, quando então vigário no município de Ribeirão, na Mata Sul de Pernambuco, a cerca de 85 km do Recife, foi declarado “homem raivoso” e expulso do país pelo trabalho pastoral lido à época como “subversivo”. De volta ao país, o religioso recebe nesta segunda-feira (21), às 18h, o título de Cidadão Pernambucano da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe).

A homenagem, proposta pelo deputado estadual João Paulo Lima (PT), ocorre quase meio século após o italiano ser condenado pela mesma casa legislativa, em setembro de 1980. Naquela ocasião, todos os holofotes se voltavam contra Vito Miracapillo quando ele se recusou a celebrar uma missa na Semana da Pátria, em Palmares, onde estava localizada sua diocese, por ocasião do Dia da Independência do Brasil.

A recusa movimentou os bastidores políticos antes mesmo da data cívica e ganhou ainda novos contornos de rebeldia quando, no dia 7 de setembro, ele disse em seu sermão: “A independência somos todos nós, quando crescemos como povo em liberdade de participação. Quando temos os direitos respeitados. Quando lutamos contra a marginalização, que é a negação do bem comum. Quando podemos escolher com liberdade os nossos governantes.”

O episódio seria impresso nas páginas de jornais de todo o Brasil e rendeu a Miracapillo 286 menções somente no Diario. No dia 10 de setembro, o jornal publicaria em sua primeira página a sentença: “Assembleia condena o padre Vito”. Por 22 votos a favor e 13 contrários, o vigário seria submetido a uma investigação por indicação do deputado estadual Severino Cavalcanti, do então Partido Democrático Social (PDS), atual Progressistas (PP).

“A intenção do deputado é o enquadramento do sacerdote na Lei dos Estrangeiros, com a consequente expulsão do País”, indicou a reportagem. Dentre os contrários, estiveram nomes como os deputados Sérgio Longman e Eduardo Pandolfi, do então PMDB. “Comemorar o que, quando trabalhadores estão comendo ratos, conforme denúncias, e crianças morrem a todo momento de inanição?”, declarou Longman, ao fim da sessão.

Com base no antigo Estatuto do Estrangeiro (Lei nº 6.815/1980), o italiano foi considerado “nocivo” e “indesejável” e deixou o Brasil em 31 de outubro daquele ano, após o Supremo Tribunal Federal (STF) rejeitar um pedido de habeas corpus apresentado em sua defesa. Na época, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) se posicionou pela sua permanência, assim como as 20 mil assinaturas foram reunidas pela sua paróquia, em Ribeirão.

Na solenidade desta segunda, participam a cônsul da Itália no Recife, Maria Salamandra; o senador do parlamento italiano Fabio Porta; e representantes da atual paróquia de Padre Vito na Itália. “A homenagem também é um gesto de memória: a história da ditadura, daqueles que resistiram e dos que foram perseguidos por defender pobres. A cidadania pernambucana confirma uma casa que sempre foi do padre Vito”, diz o deputado da Alepe.

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