A formação de um El Niño de forte intensidade prevista para o segundo semestre de 2026 deve trazer impactos principalmente para o Nordeste brasileiro, com prolongamento dos períodos de seca e aumento do risco de queimadas. O alerta foi feito pelo ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, em entrevista ao Diario de Pernambuco.
Segundo o ministro, o fenômeno já está confirmado e vem sendo acompanhado por especialistas de todo o país. “O El Niño está se formando. Hoje mesmo tivemos aqui o nosso quarto seminário envolvendo os maiores especialistas em cenários meteorológicos e climáticos do Brasil. Mais de 100 especialistas participaram, justamente discutindo como estão as perspectivas desse El Niño, que já está confirmado que nós teremos, mas ainda há dúvidas sobre a intensidade dele."
O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal. Esse aquecimento altera a circulação dos ventos e interfere na formação das chuvas em diversas partes do planeta. No Brasil, os efeitos variam conforme a região. Enquanto o Sul costuma registrar aumento das precipitações, o Nordeste tende a enfrentar um cenário de estiagem.
“O que caracteriza o El Niño? É uma redução das chuvas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Então, essa é uma característica dele. E há aumento de chuvas na região Sul, principalmente. Portanto, é uma alteração climática”, explicou o ministro.
Os efeitos do fenômeno devem ser percebidos principalmente entre outubro deste ano e maio de 2027, período que concentra boa parte das chuvas no Nordeste. A redução das precipitações pode afetar diretamente os reservatórios, o abastecimento de água e a produção agrícola da região.
Em Pernambuco, onde parte do território está inserida no semiárido e apresenta áreas suscetíveis à desertificação, o cenário exige atenção especial. Capobianco destacou que o fenômeno tende a agravar condições já existentes.
“O El Niño intensifica esse período de seca reduzindo a precipitação de chuvas. Então, para regiões que já têm regularmente períodos secos mais prolongados, como é o caso da Caatinga, no Nordeste, isso se intensifica.”
O ministro ressaltou que a combinação entre o El Niño e o aquecimento global potencializa os impactos climáticos. Segundo ele, o resultado é uma interação entre um fenômeno natural e as alterações provocadas pela ação humana. “Acaba ocorrendo uma sinergia entre um fenômeno climático, digamos, convencional, vamos dizer assim, e uma alteração do clima não convencional, provocada pela ação humana.”
Entre os principais riscos está o avanço dos processos de degradação ambiental. A redução das chuvas, associada às altas temperaturas, pode acelerar a perda de fertilidade do solo e favorecer a desertificação em áreas vulneráveis do semiárido.
“Esse cenário tende a agravar processos de degradação e que, consequentemente, trazem a desertificação. Claro que são processos de longo prazo”, alertou.
Outro fator de preocupação é o aumento da ocorrência de incêndios florestais. Com a vegetação mais seca e as temperaturas elevadas, pequenas queimadas podem ganhar grandes proporções.
“Nós temos aí um período crítico em que o risco de pequenas queimadas se transformarem em grandes incêndios é muito alto. E, para isso, nós temos alertado e feito campanhas com a população para não usar fogo nesse período”, disse.
Apesar dos desafios, o ministro destacou que medidas de adaptação podem reduzir os impactos sobre as populações mais vulneráveis. “Isso vai desde melhorar as condições das cidades e a situação no campo, ou seja, melhorar a capacidade de armazenamento de água, até proteger determinados ambientes e comunidades. Podemos fazer várias coisas, mas o clima é algo que nossa capacidade de controlar é muito pequena devido à sua dimensão.”
Capobianco também destacou que o combate às mudanças climáticas passa pela redução das emissões de gases de efeito estufa.“E um elemento central que agrava esse aquecimento no mundo todo é o uso de combustíveis fósseis, que vem provocando o aumento da presença de CO2 na atmosfera. Como consequência, há o aumento do aquecimento, reduzindo a perda de temperatura do planeta.”
Embora a intensidade do fenômeno ainda esteja sendo monitorada, existe a perspectiva de um período de maior pressão sobre os recursos hídricos do Nordeste, que exige planejamento e medidas preventivas para minimizar os impactos sobre a população, a agricultura e os ecossistemas da região.
