Após uma intensa trajetória, chega a tão aguardada
noite em que o cinema pernambucano finaliza a mais prestigiosa temporada
de sua história. Vença ou não o Oscar
nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator
e Melhor Direção de Elenco, “O Agente Secreto” levou a música, as
lendas, o imaginário e as ruas do Recife a uma participação histórica na
festa mais assistida do cinema mundial. Entretanto, a coragem e a
autoralidade da produção pernambucana já são respeitadas no mundo afora
há muito tempo.
É o que aponta o pesquisador e crítico de cinema Paulo
Cunha ao destacar a pluralidade do audiovisual do estado em conversa com
o Diario. “Todo o interesse na possibilidade de um filme rodado no
Recife ganhar o Oscar em uma ou mais categorias me leva a desejar que o
nosso cinema continue heterogêneo, praticado por homens e mulheres de
origens diversas”, projeta, refletindo ainda sobre o impacto do longa
nas políticas públicas. “Desejo que toda essa visibilidade internacional
permita que o nosso modelo de produção, baseado no Funcultura
Audiovisual, receba mais recursos para ampliar sua capacidade de gerar
filmes originais pelos próximos anos”, torce.
A singularidade do cinema pernambucano também foi destacada pelo próprio Kleber Mendonça Filho, diretor de “O Agente Secreto”,
em entrevista ao Diario em janeiro deste ano. “O cinema pernambucano é o
mais autoral do Brasil”, disse na ocasião, ao lembrar de títulos que
ajudaram a construir esse legado, como “Amarelo Manga”, de Cláudio
Assis, e “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes, além de seus
próprios filmes, como “O Som ao Redor” e “Aquarius”. “São obras tão
profundamente honestas sobre o seu lugar, que conseguem criar uma
comunicação enorme”, comenta.
O diálogo com outros cineastas que o antecederam fica
ainda mais claro no documentário “Retratos Fantasmas”, em que resgata a
memória do Centro do Recife, muitas vezes parafraseando filmes
pernambucanos emblemáticos, como o curta “Recife de dentro pra fora”, de
Katia Mesel. “Recife é uma cidade como qualquer outra. Fazer um filme
aqui é torná-lo uma estrela, como Nova York para os americanos ou Paris
para os franceses”, defendeu Kleber.
Mesel também colaborou com parte da trilha sonora de “O Agente Secreto”, resgatando músicas do disco “Paêbirú”, de Lula Côrtes e Zé Ramalho, uma delas ouvidas nos créditos iniciais do filme. Ela explica que Kleber Mendonça e Emilie Lesclaux, produtora (única indicada solo na categoria de Melhor Filme desta edição do Oscar), influenciam positivamente vários nomes da produção pernambucana ao levá-lo à maior festa de Hollywood.
“Eles estão levantando a bola de todo mundo. Essas
indicações podem ajudar ainda mais a consolidar a credibilidade de
público e a potencialidade de distribuição de filmes fora do eixo do
Sudeste. Precisamos muito aqui no Nordeste desse investimento na
exibição desse tão múltiplo e poderoso cinema que fazemos aqui há um
século”, afirma a cineasta. “Todas as pessoas que frequentam ou não o
cinema estão se interessando por esse resultado. Ele representa algo
extremamente importante que pode, inclusive, desencadear várias coisas
positivas para a nossa cultura cinematográfica”, avalia.
O professor e crítico Alexandre Figueirôa aponta que
ver o Recife chegar ao Oscar demonstra como o cinema pernambucano
reflete a pujança e a criatividade dos autores brasileiros de modo
geral, lembrando a importância da expansão dos investimentos públicos.
“O apoio governamental é fundamental para a manutenção do cinema e
quando você tem governantes que não olham para a cultura como algo
central na economia”, reforça. “É preciso que haja, qualquer que seja o
resultado dessa premiação, um cuidado com a descentralização das
produções, para estimular cada vez mais os jovens cineastas, inclusive, a
manterem essa alta como uma constante também em produções menores”,
aponta.
FORTE CANDIDATO
No páreo com o norueguês “Valor Sentimental”, que
concorre em nove categorias, “O Agente Secreto” segue forte na disputa
de Melhor Filme Internacional. Esta é a maior chance do longa entre as
quatro indicações ao Oscar, podendo se tornar a segunda vitória
consecutiva para o Brasil na categoria, após o prêmio de “Ainda Estou
Aqui” em 2025. Wagner Moura, na disputa por Melhor Ator, pode se
beneficiar da queda vertiginosa da campanha do outrora favorito Timothée
Chalamet, de “Marty Supreme”, mas a concorrência com Michael B. Jordan,
de “Pecadores”, parece ser a maior pedra no sapato do astro brasileiro.
Pouco é possível prever sobre Melhor Casting, ou Seleção de Elenco, já que se trata da edição inaugural da categoria. Gabriel Domingues, indicado por seu trabalho reunindo o vasto número de atores de “O Agente Secreto”, é o único candidato estrangeiro da lista, o que já reforça a força do filme entre os votantes, mas quem deve prevalecer na disputa é o trabalho feito por Francine Maisler em “Pecadores” ou Cassandra Kulukundis, por “Uma Batalha Após a Outra”, os mesmos trabalhos que estão na briga final pelo maior Oscar da noite, o de Melhor Filme.
